domingo, 11 de maio de 2008

Ambientando

Perdi minha carteira de novo. Mas já aconteceu tantas vezes que dessa vez já não me desespero, ainda sabendo que dessa vez tenho poucas chances de encontrar. Por que? Porque lembro lembro da última vez que a usei. Fazendo clock out no meu trabalho no Hotel Marriot. Dali fui direto pra casa. Essa eu já revirei por completo.
Nada me resta, se não seguir os ensinamentos caseiros de minha mãe. " A melhor maneira de se achar alguma coisa perdida é arrumando tudo que está bagunçado". Filosófico? Pra quem quiser encontrar outro sentido , talvez. Mas essa solução ainda é melhor que apelar pra São Longuinho. Para religiosos e supersticiosos, talvez não.
Então arrumei a casa quase toda. Tarefa nada fácil para quem vive em uma casa de temporada. Quatro quartos e um basemmant. Doze pessoas. Dois homens. Dez mulheres.Mas não foi sempre assim. Exclusivamente hoje, metade da casa está viajando. Foram para Las Vegas. Aquele imenso parque de diversões para adultos. Tenho certas críticas àquelas diversões fáceis, óbvias. Não me atrai uma cidade moldada para arrancar dinheiro do turista, sem moral nenhuma. A exorbitação das riquezas hipermaterialistas. Talvez seja eu que tenha dificuldade em me divertir gratuitamente, e acabe complicando as coisas com teses e argumentos. Mas esse sou eu, e não me entrego a maré. Já tentei. É impossível. Sinto-me um palhaço, enganado pessoas; no papel de um consumidor de imagens. Algo que não sou. Não dá.
Depois da desconcentração pela perda da carteira, que quase tirou meu ímpeto de escrever essas linhas, começo a refletir o que é essa experiência de morar numa pequena, gelada e riquíssima cidade no centro dos Estados Unidos. A cidade de Park City fica no estado de Utah, famoso pela histórica experiência da poligamia, praticada pelos mormons.
Os mormons são ( falarei sem pesquisa no Google, Wikipediaou afins, para transmitir apennas aquilo que me vem com o contato pessoa) pessoas que seguem uma religião baseada na reaparição de Jesus Cristo para um cara no território americano. Esse cara fez um livro dizendo que Jesus contou a ele que as outras religiões estavam erradas. Esse livro é o livro sagrado deles, junto com a bíblia. São vistos pelos não-mormons com preconceito, pelo seu jeito de vestir clássico-rústico, pelo rigor e disciplina com suas regras, por suas missões de catequização (meio parecido com os evangélicos no Rio de Janeiro). É estranha mesmo sua estratégia de viajar em pares de jovens que não podem se perder de vista e momento nenhum. Posso pensar em mil situações. Ir ao banheiro, constrangedor. Sexo já é proibido antes do casamento. Mas nem uma punhetinha! Enfim. E a estranheza óbvia é em relação a poligamia.
E daí nasce tudo. Cerveja com nome de Polygamia e o rótulo de Adão cheio de Evas. Serie de televisão com a vida de um homem casado com três mulheres. E daí vai.
A cidade tem muito mais , que ainda é muito menos. A cidade é um dos pontos principais dos EUA para praticar esqui e snowboard. A famosa "the best snow of the whole world". Três ou quatro resorts, vários hotéis, restaurantes caros e muito carose um desfile de grandes carros novos e pequenos esportivos muito mais caros. É a cidade do Festival de Sundance, o encontro dos supostos filmes independentes e filmes de arte. Um prato cheio pra mim, amante do cinema. Uma caravana de atores, diretores, produtores e cinéfilos. Gastam muito dinheiro, lotam hotéis, restaurantes e bares, para a alegria geral da economia da cidade. Para quem está trabalhando é uma grande loucura. São dez dias de lotação em todos os lugares, com trabalho sem hora pra acabar. Todos dormindo quatro horas por noite. Um excelente momento para se refletir se o dinheiro que se ganha, e não é pouco, compensa o trabalho que se faz. Eu trabalhei em dois lugares diferentes neste período. No turno da noite no Ruth Cris Steak House. De manhã no Hotel Marriot. Mas não comecei minha temporada aí.
Cheguei sem trabalho, acreditando que seria muito fácil de encontrar trabalho na terra das oportunidades. Andando de porta em porta, caminhando pelas ruas, logo soube que não me contratariam pelos meus belos olhos Principalmente porque estes belos olhos podiam ser facilmente confundidos com olhos mexicanos, grupo muito subjugado nessas terras.
Além disso problemas de uma cidade super-organizada não permitiam que eu, pedestre bairrista do Rio de Janeiro, desbravasse tudo a pé. Tudo funciona pra quem tem carro. O comércio é todo concentrado. Não achou nada nesse centro comercial? Fudeu! Vai ter que andar pra caralho. Tudo bem, sem estresse. Tem ônibus. E de graça! Mas até entender como funcionam as linhas dei muita voltinha em longos bairros residenciais. E, mesmo sem neve, já era bem frio. Depois das 4:30 não tem mais sol. E voltar andando de jaquetinha brasileira é suicídio. Tem que se adaptar a toda parafernália. É muito equipamento. Ceroula térmica, camisa térmica, blusa, calça, moletom, casaco, touca, cachecol, meia térmica, meia normal, bota, palmilha de pelos. dá pra sentir calor só de pensar.
Mas lá os pensamentos ficavam meio congelados...


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Visita a um estrangeiro - Prefácio

Eu tinha um horário marcado para a visita. Dez e trinta e cinco da manhã. Um horário estranho e intransferível. Ainda assim, com o pedido expresso de que eu chegasse com antecedência. Então acordei cedo, fiz alguns exercícios para a postura e pra barriga que não vão lá muito bem. Não vão bem desde uma aula experimental de Pilates. Descobri que respirava e andava errado. E eu andava tão bem até então... A professora era cheirosa e não tirava os olhos de mim, mesmo que fosse para dizer apenas "Está respirando errado". Mesmo assim , nunca voltei lá. Nem porque estava com preguiça de reaprender a andar e respirar, nem porque a professora realmente não me dava mole. A verdade: o preço era uma baba.

Depois dos exercícios que aprendi em apenas uma aula, abri a porta do meu quarto para o café da manhã. Como já era de se esperar, minha mãe estava mais ansiosa do que eu. Me alertava para não perder a hora. Mais um dos instintos, do tipo: "Não vai botar o casaco?" Mães.

Tomei um bom banho. Saindo do chuveiro, fiquei em frente ao espelho. Lembrei-me das instruções para a visita. 1. Procure estar de barba feita. 2. Camisa social é uma boa pedida. 3. Use roupas claras. 4. Vá de cabelo cortado. 5. Vá de cuecas e meias limpas. ( só faltava) 6. Seja Cordial. Puta controle. Lembrei-me de um clipe do Eminem, em que uma máquina faz um bando de garoto com a roupa e o cabelo do Eminem. Padronizado. Então resolvi. A barba eu não vou fazer. E a camisa social vai ser a que eu achar melhor. Evitei a de tecido cru. Ficou igual a uma bata árabe. Também não preciso apelar.

O consulado americano é um órgão público, como todo consulado. E, como todo órgão público, tem suas regras. Fila do lado de fora. Alguém chega para conferir se está com todos os documentos a mão. Caso lhe falte a foto 5x5, tem um camelô-fotógrafo preparado para o serviço. É claro, com preços acima do mercado. Isto é um fato a se analisar. Tendo oportunidade, sempre tem alguém para lucrar. Tem o cara que vende a taxa do banco americano, caso alguém não tenha. Tem o que vende o formulário impresso em branco, e outro que preenche. Tem um que corre certo risco, e é odiado quando desmascarado. Encara a fúria do povo. O vendedor de lugar na fila. O maior filho da puta da praça. Todos eles convivem bem. Uma companhia de atendimento aos esquecidos , distraídos e apressados do consulado. Um camelô guarda sua mala ou seu celular do lado de fora. Não é permitida a entrada com estes. Faltou um armário escaninho com senha. Sugerirei, caso alí volte.

Pergunta: Por que não se pode entrar no consulado com telefone celular? Para não pagar interurbano em território estrangeiro? Como são bons ! Fato comum a àqueles que são tão amados.

Depois da segunda fila de espera do lado de fora, passamos por um detector de metais. As bolsas e mochilas passam por um raio-x. No caminho para a próxima sala abro uma porta. Que porta pesada camarada! Incrível. Um palmo de espessura. Eu que não queria ser porteiro dalí.

Chegamos então a uma sala oval, com um corredor central . Dois balcões, um de cada lado do corredor. Um para receber seus documentos, checar se esta tudo certo ( de novo). O outro com uma placa: "Correio Expresso". E não bastasse aquela companhia toda especializada ao lado de fora , ainda tem alguém lucrando do lado de dentro. Além dos dois balcões, muitas cadeiras. Bancos enfileirados, como sala de espera de grandes clínicas médicas. Cabiam umas duzentas pessoas ali. As paredes com acabamento em madeira com ondulações na vertical. Assim como uns blocos verticais finos, que alinhados davam uma sensação de onda, localizados numa parte da parede próxima ao teto. Decoração que gera certo conforto para um ambiente que é idêntico a um cofre forte de um banco. Aposto que tinham câmeras e microfones.
Também havia duas placas eletrônicas de senha. Uma para seguir para a gravação das impressões digitais. A outra eu não entendi para que servia. O fato é que as senhas não eram chamadas em ordem, obrigando você a ficar ligado na senha. E se não fica, nenhum dos americanos nos guichés se importa caso ninguém apareça para ser atendido.

As pessoas dispostas nesse salão pareciam artificiais. Poucos conseguem relaxar. Tinha um cabeludo, tipo roqueiro adolescente, que parecia ter feito a barba pela primeira vez. Amarrou o cabelo numa trança gigante para ficar mais apresentável. Mas não ter nada pra fazer naquele ambiente torna tudo mais tedioso. Momento pra pensar na vida. Invejei com força uma senhora ao meu lado que se entretinha com uma palavra cruzada. Ela percebeu que eu olhava pra sua revista. Riu nervosa pra mim. Estava convicta que seu pai, uma simpática cabeça branca ao seu lado, nunca conseguiria tirar o visto. "Sabe qual é o nome dele? Khalid al-Nassaj." Seu pai ria e me dizia: "e eu nem simpatizo com a Alcaida.Hihihi" Por um longo período segui invejando a palavra cruzada.

O clima do ambiente não permitia muita interação com as pessoas. O cara do balcão levantou a voz e o silêncio completo se fez: Flávia Costa Miranda. Flávia-Costa-Miranda. O clima de "se fudeu" se instaurou no olhos de todos. Levanta uma menina de no máximo 12 anos. Desfila pelo corredor central. " Óh, o que será que ela fez? Coitadinha. Não vai poder ir pra Disney com a família?" todos os olhos diziam. Foi só uma chamada... ela tirou os olhos do placar. Seu número já estava lá há uns cinco minutos.
De repente ((PÁ!)). Um estalo retomou o silêncio absoluto do cofre, Olhos medrosos corriam todos na mesma direção. Todos contaminados com o doente medo americano de atentado iminente em qualquer lugar. Doença parente do medo carioca de bala perdida. Eu não tenho medo de bala perdida. Me preocupa mais as balas com endereço certo. Mas também idiota de ficar parado em tiroteio. O PÁ foi a pasta de um pai com bebê de colo nos braços. Parece que o bebê jogou a pasta do papai no chão. Parece que o papai ficou com cara de pato( bico pra baixo e olho chapado). O bebê, que maravilha, a quem toda a neurose sócio-política-xenofóbica-comportamental ainda não foi assimilada, continua rindo.

Chegou meu número. 181. Minha vez de desfilar pela passarela do corredor central. Guichê 8. Primeiro americano com quem falo. Como sei? Motivos óbvios. Uma carona branca avermelhada, de quem o corpo não suporta o clima nem sob ar condicionado. Um sotaque carregado de quem tem um ovo na boca. Um olhar reprovador constante. Um vidro de 5 camadas entre nós. Americano. Dedo indicador esquerdo no aparelhinho de capturar digitais. Dedo direito. "Cóm fórrça!". Deve ter dado problema na leitura do aparelho, já que meu indicador direito é meio defeituoso, graças a um corte que quase decepa sua ponta, quando eu tinha uns dez anos. Famoso dedo zunha. Minha vontade na hora foi de enfiar o dedo na maquininha e arrebentar aquele bagulho com a pressão. Mas eles ainda tinha algo que eu queria, e também não sei se teria força pra isso.

O americano me perguntou de surpresa. "Know english?". Gaguejo. Yes , yes... well. Fui e ncaminhado para mais uma sala de espera. Mais uma sala, mais uma placa eletrônica chamando fora de ordem. Certamente, mais uma vez, câmeras e microfones.

Dessa vez 7 cabines. Três para um lado, três para o outro. No meio a porta 4. As outras seis são pequenas cabines, que conseguimos ver as entrevistas do banco de espera. Brasileiros - 5 camadas de vidro - americanos. Mas a porta 4 era diferente. Uma porta que dava para um corredor de paredes de camurça. Ninguém daquele grupo foi chamado pra lá. O que haveria lá? Uma sala com uma banca de examinadores sentados num palco alto, voltados para uma única cadeira no centro da sala? Sala para casos especiais, como aqueles que assinalaram um "X" na opção do formulário " Tenho conhecimentos de física nuclear" ? ( sim, há essa opção no formulário, perto da opção " tenho prazer/ admiração pelo uso/manuseio de armas de fogo). A sala 4 poderia ser só uma fachada, para mexer com a imaginação. Podia acabar no corredor. Mas eles não teriam um senso de humor desses. Só sei que na hora da espera eu sabia. Se piscasse "181 - guichê 4" eu levantava e me despedia. "Desisto". Tocou para o 6.

Três ou quatro perguntas idiotas em inglês. Pague aqui, volta aqui, pague lá e good luck in Unites States.

Pior que americano escroto é brasileiro que pega o jeito de americano escroto. A última atendente, funcionária da empresa de Entrega Expressa que envia o passaporte com visto. Jeito arrogante que não combina. Infectada.

Saí empurrando as pesadas portas. Agora não tem mais jeito. Estarei lá. Caminhando pela área calma do Centro do Rio, resolvo comer um salgado. O baixinho do balcão paquera todo solícito a secretária que vai sempre ali. Ela esquece o seu caderno. Ele abandona o posto para entregá-la. Vou sentir falta disso aqui.

domingo, 20 de abril de 2008

O Ateneu

Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. 

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[...] vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um homem! ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.

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Olhe; um conselho; faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos perdem-se.

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Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro sono, nem a oração, tão longe nesse momento, que me protegia à noite como um dossel de amor; o abandono apenas das crianças sem lar que os asilos da miséria recolhem.

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No tumulto da existência em comum, fundem-se as distinções de classe na democracia do coleguismo.

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Para que o indivíduo perdure, momento genésico da existência especifica no tempo, é indispensável adaptar-se as imposições do meio universal. O rio a correr não despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem pode sofismar o obstáculo do menor rochedo no alvéu. O critério inconsciente do instinto é o guia da adaptação.

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“... Esquecem pais e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilância inelutável de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada a fisionomia, abatida a dignidade, agravam ainda a natureza; esquecem as leis sagradas do respeito à individualidade humana... E encontram colegas assaz perversos, que os favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora da justiça!...”

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A comida do Ateneu não era péssima.

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Tanto melhor: é a escola da sociedade.

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A educação não faz almas: exercita-as. E o exercício moral não vem das belas palavras de virtude, mas do atrito com as circunstâncias.

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Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo — o funeral para sempre das horas.



Documentário começará a ser editado em poucos dias!