Nada me resta, se não seguir os ensinamentos caseiros de minha mãe. " A melhor maneira de se achar alguma coisa perdida é arrumando tudo que está bagunçado". Filosófico? Pra quem quiser encontrar outro sentido , talvez. Mas essa solução ainda é melhor que apelar pra São Longuinho. Para religiosos e supersticiosos, talvez não.
Então arrumei a casa quase toda. Tarefa nada fácil para quem vive em uma casa de temporada. Quatro quartos e um basemmant. Doze pessoas. Dois homens. Dez mulheres.Mas não foi sempre assim. Exclusivamente hoje, metade da casa está viajando. Foram para Las Vegas. Aquele imenso parque de diversões para adultos. Tenho certas críticas àquelas diversões fáceis, óbvias. Não me atrai uma cidade moldada para arrancar dinheiro do turista, sem moral nenhuma. A exorbitação das riquezas hipermaterialistas. Talvez seja eu que tenha dificuldade em me divertir gratuitamente, e acabe complicando as coisas com teses e argumentos. Mas esse sou eu, e não me entrego a maré. Já tentei. É impossível. Sinto-me um palhaço, enganado pessoas; no papel de um consumidor de imagens. Algo que não sou. Não dá.
Depois da desconcentração pela perda da carteira, que quase tirou meu ímpeto de escrever essas linhas, começo a refletir o que é essa experiência de morar numa pequena, gelada e riquíssima cidade no centro dos Estados Unidos. A cidade de Park City fica no estado de Utah, famoso pela histórica experiência da poligamia, praticada pelos mormons.
Os mormons são ( falarei sem pesquisa no Google, Wikipediaou afins, para transmitir apennas aquilo que me vem com o contato pessoa) pessoas que seguem uma religião baseada na reaparição de Jesus Cristo para um cara no território americano. Esse cara fez um livro dizendo que Jesus contou a ele que as outras religiões estavam erradas. Esse livro é o livro sagrado deles, junto com a bíblia. São vistos pelos não-mormons com preconceito, pelo seu jeito de vestir clássico-rústico, pelo rigor e disciplina com suas regras, por suas missões de catequização (meio parecido com os evangélicos no Rio de Janeiro). É estranha mesmo sua estratégia de viajar em pares de jovens que não podem se perder de vista e momento nenhum. Posso pensar em mil situações. Ir ao banheiro, constrangedor. Sexo já é proibido antes do casamento. Mas nem uma punhetinha! Enfim. E a estranheza óbvia é em relação a poligamia.
E daí nasce tudo. Cerveja com nome de Polygamia e o rótulo de Adão cheio de Evas. Serie de televisão com a vida de um homem casado com três mulheres. E daí vai.
A cidade tem muito mais , que ainda é muito menos. A cidade é um dos pontos principais dos EUA para praticar esqui e snowboard. A famosa "the best snow of the whole world". Três ou quatro resorts, vários hotéis, restaurantes caros e muito carose um desfile de grandes carros novos e pequenos esportivos muito mais caros. É a cidade do Festival de Sundance, o encontro dos supostos filmes independentes e filmes de arte. Um prato cheio pra mim, amante do cinema. Uma caravana de atores, diretores, produtores e cinéfilos. Gastam muito dinheiro, lotam hotéis, restaurantes e bares, para a alegria geral da economia da cidade. Para quem está trabalhando é uma grande loucura. São dez dias de lotação em todos os lugares, com trabalho sem hora pra acabar. Todos dormindo quatro horas por noite. Um excelente momento para se refletir se o dinheiro que se ganha, e não é pouco, compensa o trabalho que se faz. Eu trabalhei em dois lugares diferentes neste período. No turno da noite no Ruth Cris Steak House. De manhã no Hotel Marriot. Mas não comecei minha temporada aí.
Cheguei sem trabalho, acreditando que seria muito fácil de encontrar trabalho na terra das oportunidades. Andando de porta em porta, caminhando pelas ruas, logo soube que não me contratariam pelos meus belos olhos Principalmente porque estes belos olhos podiam ser facilmente confundidos com olhos mexicanos, grupo muito subjugado nessas terras.
Além disso problemas de uma cidade super-organizada não permitiam que eu, pedestre bairrista do Rio de Janeiro, desbravasse tudo a pé. Tudo funciona pra quem tem carro. O comércio é todo concentrado. Não achou nada nesse centro comercial? Fudeu! Vai ter que andar pra caralho. Tudo bem, sem estresse. Tem ônibus. E de graça! Mas até entender como funcionam as linhas dei muita voltinha em longos bairros residenciais. E, mesmo sem neve, já era bem frio. Depois das 4:30 não tem mais sol. E voltar andando de jaquetinha brasileira é suicídio. Tem que se adaptar a toda parafernália. É muito equipamento. Ceroula térmica, camisa térmica, blusa, calça, moletom, casaco, touca, cachecol, meia térmica, meia normal, bota, palmilha de pelos. dá pra sentir calor só de pensar.
Mas lá os pensamentos ficavam meio congelados...